Suposta aparição de OVNI acende alerta: Como o algoritmo usa o seu medo para viralizar mentiras – Por Ronaldo Aleixo.

O avanço tecnológico nos trouxe a um cenário paradoxal: ao mesmo tempo em que democratiza o acesso à informação, ele pulveriza a fronteira entre o real e o simulado. O recente vídeo que circula nas redes sociais, onde um influenciador digital utiliza ferramentas de Inteligência Artificial para supostamente decodificar mensagens em código Morse sobre aparições de OVNIs, acende um alerta que vai muito além do entretenimento ou da ufologia. Como especialista em Direito Digital e LGPD, vejo com profunda preocupação como a desinformação estruturada pode ser utilizada como vetor de instabilidade social, exigindo uma análise técnica, jurídica e investigativa rigorosa.

A Engenharia da Ilusão: O Vídeo sob a Ótica Técnica
Para compreender o perigo, é preciso primeiro desmistificar o mecanismo. No conteúdo em questão, o produtor de conteúdo realiza o isolamento de áudio e submete o ruído resultante a plataformas de decodificação e modelos de linguagem generativa. O resultado — a frase “há mais do que os olhos enxergam” — é recebido pelo público como uma “revelação bombástica”.

Contudo, sob o olhar da ciência de dados, o que ocorre é um fenômeno conhecido como alucinação direcionada. A Inteligência Artificial generativa opera por probabilidade estatística. Quando alimentada com dados corrompidos ou ruídos sem sentido prático, e sob o comando de um usuário que busca uma resposta específica, o algoritmo tende a moldar um resultado que satisfaça a expectativa do comando, recorrendo a expressões altamente comuns em seu banco de dados de ficção e cultura pop. A máquina não descobriu uma verdade oculta; ela apenas entregou o que o criador de conteúdo queria validar.

O perigo real da desinformação e o papel do Direito Digital
A disseminação de teorias conspiratórias travestidas de “descobertas científicas ou tecnológicas” não é inofensiva. A desinformação tem o potencial latente de causar estragos reais na sociedade, afetando desde a segurança pública até a confiança nas instituições e na própria ciência.

Diante disso, a postura correta e tecnicamente respaldada não deve ser a de passividade ou mera curiosidade mística. É imperativo investigar o vídeo e o influenciador que o postou.

No ordenamento jurídico atual e no escopo do Direito Digital, a liberdade de expressão e a criação de conteúdo ficcional são amplamente garantidas. No entanto, quando a linha da ficção é deliberadamente borrada para induzir o coletivo ao erro, gerando pânico ou manipulando a percepção pública por meio de artifícios tecnológicos simulados, entramos na esfera da responsabilidade civil e criminal. Investigar a origem do material, o dolo (intenção) do emissor e o uso de dados no treinamento ou manipulação dessas ferramentas é o primeiro passo para conter a viralização nociva.

A LGPD e a Governança de Dados no Olho do Furacão
Sob a perspectiva da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a discussão ganha mais uma camada de complexidade. O ecossistema que alimenta e propaga esses vídeos baseia-se na coleta massiva de dados comportamentais. Os algoritmos das plataformas sociais utilizam o perfil dos usuários para criar bolhas de filtro: se um indivíduo demonstra interesse por mistérios ou teorias da conspiração, a IA passará a bombardeá-lo exclusivamente com esse tipo de conteúdo para maximizar o engajamento.

Essa customização da realidade fragmenta o debate público. O cidadão deixa de viver no mundo real e passa a habitar uma linha do tempo desenhada sob medida para os seus vieses de confirmação. A governança de dados e a transparência algorítmica — pilares do Direito Digital moderno — são as ferramentas que temos para exigir que as Big Techs prestem contas sobre como a IA está sendo usada para impulsionar narrativas sabidamente distorcidas em troca de lucro com atenção.

O maior perigo não vem do espaço

O maior risco que enfrentamos hoje não é uma invasão alienígena ou forças ocultas da natureza. O verdadeiro perigo reside na nossa própria incapacidade coletiva de filtrar o que é real do que é gerado por um prompt de comando.

A Inteligência Artificial é um espelho dos nossos desejos e medos. Se não houver uma fiscalização séria sobre os agentes que utilizam a tecnologia para fabricar pânicos virtuais, e se o Direito Digital não for aplicado com rigor para garantir a transparência e a responsabilidade na rede, continuaremos a ver a verdade ser decodificada e distorcida ao gosto do algoritmo do dia. Investigar não é censura; é legítima defesa da verdade factual.

Texto: Ronaldo Aleixo – Jornalista e especialista em Direito Digital e LGPD pela PUCRS

Vídeo que circula feito em IA.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui