Amazonas pode encerrar jejum de 12 anos sem deputadas federais; Marília Freire é aposta da esquerda

Candidata do PCdoB concorre em um estado que não elege mulheres para a bancada federal desde 2014 e onde a esquerda não tem representantes na Câmara

Ato de Mulheres. Marília Freire. Foto Gabriel Ozaki

O Amazonas pode encerrar, no próximo domingo, 4 de outubro, um jejum de 12 anos sem mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados. A última eleição de uma deputada federal pelo estado foi em 2014, e desde 2019 as oito cadeiras amazonenses estão ocupadas por homens. Entre as candidatas na disputa está Marília Freire, aposta do PCdoB Amazonas para reocupar um espaço que o partido não tem desde os tempos de Vanessa Grazziotin, única mulher da esquerda amazonense a chegar ao Senado.

A disputa também tem um recorte partidário. Nenhum dos oito deputados federais eleitos pelo Amazonas em 2022 é do PT, do PCdoB ou do PSOL. Para o presidente estadual do PCdoB, Yann Evanovick, a candidatura de Marília pode “fortalecer um novo ciclo da esquerda no estado”, afirma.

Marília tem 43 anos, nasceu em Manaus, é mulher negra, amazônida, lésbica e mãe. É psicóloga, bacharel em direito, servidora pública e doutoranda, onde pesquisa meninas-mães do Amazonas. Há 20 anos atua em movimentos pelos direitos humanos, das mulheres e das crianças e coordena o Fórum Permanente de Mulheres do Amazonas, integra coletivo que enfrenta a violência obstétrica, e coordenou a primeira turma de Promotoras Legais Populares do estado.

A estreia nas urnas foi em 2022, quando disputou o Senado como a única mulher na corrida e recebeu 28.557 votos, numa eleição vencida por Omar Aziz (PSD). Agora, concorre à Câmara pela Federação Brasil da Esperança, que reúne PT, PCdoB e PV, com o slogan de levar o Amazonas para o centro do Brasil.

Durante o ato de mulheres com Lula, Marília subiu ao trio elétrico e falou sobre a trajetória de militância que levou à candidatura. “Nós estamos acostumadas a estar na luta, a estar  lutando pelos nossos direitos. Eu quero dizer que esse é o ano da nossa ocupação na política”, discursou. Ela pediu votos também a eleitores de outros partidos. “Vamos eleger uma mulher na Câmara dos Deputados e voltar a ocupar esse lugar”, disse.

A candidatura tem como base os movimentos sociais. Na pré-campanha, Marília organizou o movimento Da Beira ao Centro, que reuniu mulheres, juventudes, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pessoas LGBTQIAPN+, 14 segmentos no total, em espaços de escuta. As crianças também foram ouvidas, numa plenária própria chamada Plenarinho. O resultado foi um programa com mais de 80 propostas, com destaque para a proteção das infâncias, o enfrentamento às violências contra as mulheres, a saúde pública no interior e a justiça climática.

Em agosto, com Manaus sob fumaça e calor extremo, Marília protocolou representação no Ministério Público do Amazonas cobrando do governo estadual os planos de enfrentamento ao El Niño. O estado havia decretado emergência climática em 1º de junho, mas mais de dois meses depois, ainda negociava recursos federais. “É inadmissível que o governo do Estado não esteja preparado”, afirmou na ocasião.

O Amazonas tem 139 candidaturas registradas à Câmara dos Deputados em 2026 e cerca de 2,8 milhões de eleitores aptos a votar. O primeiro turno das eleições acontece no domingo, 4 de outubro.

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