A trajetória política do ex-prefeito de Manaus, David Almeida, revela um pragmatismo que coloca em dúvida a veracidade do seu discurso de pacificação na disputa pelo Governo do Amazonas. Ao mesmo tempo em que veste a camisa da “terceira via” e prega a união contra o extremismo, a composição da sua base eleitoral reúne atores históricos de oposição à direita e quadros fortemente vinculados ao campo governista e à esquerda.
A Declaração de Guerra ao Bolsonarismo
Antes de adotar o discurso do “Brasil enfermo que precisa de cura”, Almeida construiu sua liderança no embate direto. O gestor acusou abertamente interlocutores de Jair Bolsonaro de reterem cerca de R$ 1 bilhão em verbas federais para Manaus, cravando que o ex-presidente cometeu um erro ao apoiar adversários locais. Ao classificar o grupo conservador como “inimigo dos interesses da cidade”, Almeida foi o primeiro a politizar a gestão e alimentar a polarização na capital.
A Aliança com o PDT e Figuras do Lulismo
A tentativa de apresentar uma imagem moderada contrasta com a composição dos seus palanques:
Carlos Lupi e o PDT: O apoio do presidente nacional do PDT inseriu Almeida no centro da órbita do governo federal. Lupi, figura próxima ao PT, tornou-se alvo de investigações e delações da Operação Sem Desconto sobre irregularidades no INSS, processo que tramita no STF sob a relatoria do ministro André Mendonça.
Eduardo Braga: O alinhamento estratégico com o senador Eduardo Braga (MDB) — tradicional liderança governista no estado — consolida a aproximação com forças de oposição ostensiva ao eleitorado conservador.
Renato Jr.: A presença de Renato Jr. (Avante) na articulação política reforça a guinada ao campo alinhado à esquerda. Suas declarações recentes de apoio irrestrito a Braga expõem a coordenação com a base governista de Lula e Omar Aziz.
Paz por Conveniência Eleitoral
A “paz” pregada no Teatro Amazonas com balões brancos surge como estratégia para diluir a rejeição e dialogar com eleitores de todos os lados. Para o eleitor atento, a mensagem nas ruas de Manaus é clara: não se trata de promover a união nacional, mas de ajustar o discurso ao jogo eleitoral para garantir a própria sobrevivência nas urnas.
A incoerência desse alinhamento fica ainda mais evidente nas táticas de embate direto adotadas pelo seu próprio grupo. O tom agressivo da base veio à tona quando Renato Jr. atacou abertamente a candidata Maria do Carmo — indicada pelo grupo de Jair Bolsonaro —, acusando-a de sonegação e chamando-a de “devedora de impostos” ao expor uma dívida milionária em IPTU junto aos cofres de Manaus. O episódio escancara que a alegada trégua ideológica é usada como fachada, enquanto os bastidores seguem dominados por ofensivas diretas contra o eleitorado conservador.



