A expectativa de uma visita do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Manaus nesta segunda-feira (28) não se concretizou. Em vez de enfrentar um reduto onde a oposição mantém forte influência e o clima de insatisfação é crescente, o petista optou por concentrar sua agenda na reta final da campanha em Belém (PA). No cenário político local, a ausência é interpretada como uma tentativa de evitar o desgaste direto com uma população exausta por crises crônicas e promessas não cumpridas, especialmente no que diz respeito ao isolamento logístico e ao colapso energético.
O primeiro grande gargalo que afasta o eleitorado amazonense é a interminável novela da BR-319. Em maio, durante o período de pré-campanha, Lula esteve em Manaus e garantiu a retomada das obras da rodovia que liga o estado a Rondônia e ao resto do país. No entanto, o projeto segue travado por embates judiciais e suspensões de licenças ambientais. Aliados locais de peso, como os senadores Eduardo Braga (MDB) e Omar Aziz (PSD), reiteraram as promessas de pavimentação, mas, na prática, a população continua refém da falta de integração terrestre. Para os eleitores, o discurso esbarra na realidade de um governo federal que não consegue destravar a obra, alimentando o sentimento de abandono.
Somado ao isolamento físico, a capital amazonense lida diariamente com a precariedade dos serviços básicos. Manaus enfrenta uma rotina severa de cortes constantes de eletricidade, impactando o comércio, a indústria e a qualidade de vida. A crise energética tornou-se o epicentro de uma disputa política envolvendo a Âmbar Energia, concessionária responsável pela distribuição no estado. O clima esquentou após o ex-governador Wilson Lima acusar o senador Eduardo Braga, principal fiador da base governista no estado, de manter investimentos milionários no Grupo J&F, controlador da Âmbar. Embora Braga negue participação societária na distribuidora e afirme combater judicialmente as falhas da empresa, a controvérsia gerou uma crise de credibilidade que atinge diretamente o palanque lulista.
Este acúmulo de frustrações compõe o que a oposição e os críticos classificam como um cenário de abandono governamental. Sem a BR-319 para garantir o direito básico de ir e vir, e sem estabilidade energética para o funcionamento da metrópole, o palanque de Lula no Amazonas tornou-se um terreno politicamente espinhoso. A decisão de adiar a ida ao estado para um eventual segundo turno evidencia que as cobranças pela rodovia e as explicações sobre os apagões formam, hoje, uma fatura eleitoral alta demais para ser encarada nas ruas de Manaus.





