Brasília/Rio de Janeiro – Uma acirrada controvérsia política domina o cenário nacional, contrapondo o intenso ativismo diplomático do governo federal em questões globais e a crônica e violenta crise de segurança pública no Rio de Janeiro. O debate, que questiona a prioridade e a coerência das ações da União, ganhou novo e dramático capítulo após a megaoperação policial que resultou em mais de 120 mortes no estado fluminense na última terça-feira (28).
De um lado, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva projeta o Brasil como um ator de destaque global, buscando a paz em complexos cenários geopolíticos, como a mediação de crises que envolvem o Hamas, o Irã e a guerra na Ucrânia. A política externa é uma competência exclusiva da União, e o governo tem medido sucesso pela influência, pelo resgate de brasileiros em zonas de conflito e pela defesa do multilateralismo.
Do outro, a segurança pública no Rio de Janeiro revela a urgência de um problema doméstico onde as responsabilidades são partilhadas no sistema federativo.
A tensão atingiu o auge quando o Ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, revelou o “estarrecimento” e a “surpresa” do Presidente Lula com a escala e o número de vítimas fatais da megaoperação policial no Rio.
“O presidente ficou estarrecido com o número de ocorrências fatais e também se mostrou surpreso que uma operação desta envergadura fosse desencadeada sem conhecimento do governo federal,” afirmou Lewandowski.
A fala joga luz sobre a desarticulação entre as esferas de poder. O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, confirmou que, embora houvesse contatos de inteligência “no nível operacional” sobre a intenção de uma “grande operação”, a direção da PF considerou o plano “não razoável” e incompatível com o modo de atuação da Polícia Federal, decidindo não participar.
Críticas: Incoerência entre o Global e o Local
A disparidade entre o ativismo internacional e a crise doméstica alimenta a crítica de “incoerência” ou “incompetência” na gestão federal.
Críticos argumentam que a dedicação intensa a conflitos distantes, onde o Brasil atua apenas diplomaticamente, representa uma inversão de prioridades, desviando o foco de um problema urgente que mata brasileiros diariamente. Para este grupo, a segurança dos cidadãos em seu próprio território deveria ser a prioridade máxima e inegociável.
Por outro lado, defensores do governo federal sustentam que a política externa e a segurança pública são esferas distintas com objetivos próprios. Argumentam que a União tem oferecido cooperação e recursos dentro dos limites da lei e do federalismo, e que o desafio crônico do Rio exige uma complexa articulação e planejamento de longo prazo que é, em grande parte, de responsabilidade do governo estadual.
Em resumo, o episódio recente no Rio de Janeiro intensifica a tensão sobre onde o governo federal deve concentrar sua maior energia. Enquanto busca liderança nos palcos globais, a dramática realidade do crime organizado e da violência urbana cobra uma resposta mais decisiva, coordenada e, sobretudo, eficaz na esfera doméstica.





