A situação da Hapvida no Amazonas se desenha como um paradoxo flagrante, levantando uma questão crucial: a operadora de saúde realmente presta um serviço adequado? As denúncias e os fatos recentes traçam um cenário de contradições que exigem clareza e respostas.
De um lado, o desespero das mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é palpável. Elas buscaram a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) para denunciar que a Hapvida não disponibiliza os tratamentos e terapias essenciais para o desenvolvimento de seus filhos. Ayda Freitas, representando essas mães, é enfática: as famílias se sacrificam para pagar um plano de saúde na esperança de garantir o acesso a esses tratamentos. Contudo, segundo ela, a Hapvida não oferece profissionais especializados, carece de estrutura e, em alguns casos, descumpre até decisões judiciais. A dor dessas mães é evidente ao afirmar que a falta de terapias “condena nossos filhos a serem dependentes” e causa “retrocesso no desenvolvimento psicológico, motor e social”. Para esse grupo vulnerável, a percepção é unânime: a Hapvida não presta.
No entanto, o cenário se inverte quando consideramos a suspensão do plano de saúde de professores e servidores da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (Seduc) no Amazonas. O deputado Wilker Barreto denunciou que a Hapvida suspendeu os atendimentos devido a uma dívida superior a R$ 57 milhões, acumulada por mais de 10 meses de inadimplência por parte da Seduc. Essa interrupção afeta mais de 40 mil vidas, incluindo servidores em tratamento contínuo de doenças crônicas, que agora são direcionados ao já sobrecarregado Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, a Hapvida se posiciona como a parte lesada, agindo amparada pela Resolução Normativa nº 561/2022 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Para a operadora, a falta de pagamento da Seduc inviabiliza a continuidade do serviço. O deputado Barreto alerta que a suspensão “ceifará vidas”, pois “o câncer não espera, o câncer avançará”.
Essas duas situações expõem um dilema complexo. Por um lado, mães desesperadas acusam a Hapvida de priorizar o lucro em detrimento da saúde e desenvolvimento de crianças autistas, oferecendo planos “muito abaixo do preço que não cobre os custos e não oferece o tratamento necessário”. Por outro lado, a operadora enfrenta uma dívida milionária da Seduc, o que impacta sua capacidade de operar e manter os serviços para milhares de usuários. A questão central é: a Hapvida deixou de prestar um serviço por falha operacional, má-fé ou por ser vítima da inadimplência de um grande cliente?
Para os servidores da educação afetados pela suspensão devido à dívida da Seduc, a responsabilidade recai, em parte, sobre o Governo do Amazonas. Em última análise, as denúncias e os fatos revelam uma tensão constante entre o compromisso com a saúde dos beneficiários e a sustentabilidade financeira da operadora. A Hapvida está sob os holofotes, e a resolução desses impasses definirá sua reputação no Amazonas.
Principais reclamações e irregularidades reportadas
As principais reclamações contra a Hapvida no Amazonas, baseadas em denúncias e apurações recentes, concentram-se em problemas na prestação de serviços e no cumprimento de obrigações contratuais. Veja os pontos mais críticos:
- Dificuldade de acesso a tratamentos e terapias para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA):
- Não disponibilização de tratamentos essenciais: Mães denunciam que a operadora não oferece as terapias e tratamentos necessários para o desenvolvimento das crianças com TEA.
- Falta de profissionais especializados: Há uma carência de profissionais qualificados para o atendimento adequado dos autistas.
- Estrutura inadequada e descumprimento judicial: A ausência de estrutura apropriada e o descumprimento de decisões judiciais que garantem o direito ao tratamento são recorrentes.
- Impacto no desenvolvimento infantil: As famílias alegam que a falta de terapias causa um retrocesso significativo no desenvolvimento psicológico, motor e social das crianças, “condenando-as a serem dependentes”.
- Denúncias de condutas abusivas: Há relatos de que a Hapvida acionou a polícia contra mães que protestavam pela falta de terapia e de “agendamentos fantasmas” de consultas, feitos sem o consentimento dos pais.
- Atuação de órgãos fiscalizadores: O Ministério Público do Amazonas (MPAM) e o Procon já investigaram e notificaram a Hapvida por essas irregularidades, resultando em ações judiciais.
- Dificuldade para agendamento de consultas e acesso a tratamentos multidisciplinares:
- Falhas na assistência: A Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM) realizou audiências públicas para discutir as falhas na assistência da Hapvida, após receber inúmeros relatos de usuários com dificuldades para marcar consultas e acessar tratamentos.
- Atendimento precário: Usuários descrevem um “atendimento precário” nas unidades da operadora, com longas esperas e cancelamentos de procedimentos.
- Descumprimento de direitos do consumidor:
- Serviço pago, mas não recebido: Mães de crianças com TEA e outros consumidores afirmam que a Hapvida “quebra os direitos de consumidores, que pagam por um serviço, mas não o recebem”.
- Dificuldade para realizar cirurgias: Há queixas significativas sobre a burocracia e as dificuldades impostas pela operadora para a autorização e realização de cirurgias.
- Reforço das ações judiciais: As diversas ações judiciais e as intervenções de órgãos de defesa do consumidor, como o MPAM e o Procon, corroboram a percepção de descumprimento das obrigações contratuais e legais da empresa.
Essas reclamações pintam um quadro de desafios significativos na prestação de serviços da Hapvida no Amazonas, afetando diretamente a saúde e o bem-estar de seus beneficiários.
Hapvida emitiu Nota de Esclarecimento
Após ter sido acusada de ser “inimiga dos Autistas” por familiares de pessoas com autismo, a operadora de planos de saúde Hapvida emitiu uma nota de esclarecimento para os consumidores. (trecho do Blog Luciano Seixas – https://www.lucianoseixas.com/2025/05/hapvida-emite-nota-de-esclarecimento.html).
Leia a nota na íntegra:
“A operadora reforça seu compromisso com um atendimento humanizado, seguro e de qualidade a todas as crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). As unidades seguem protocolos assistenciais que garantem o acolhimento adequado, respeitando as necessidades de cada paciente.
Equipes multidisciplinares atuam de forma integrada para oferecer um cuidado individualizado, com foco na saúde, no bem-estar e na continuidade do tratamento. A empresa também cumpre, com responsabilidade, as determinações legais aplicáveis a cada caso.
Permanece à disposição das famílias para esclarecimentos e segue empenhada em aprimorar continuamente a assistência prestada.”
Imagens e vídeo de protestos em alguns lugares do Brasil:
Ao menos 20 mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), foram surpreendidas com a suspensão das terapias proporcionadas pela Hapvida Medical de Limeira (SP). Diante disso, elas organizaram uma manifestação em frente ao local para protestarem contra o cancelamento dos atendimentos.

Para os responsáveis pelas crianças, essa medida significa um retrocesso e pediram auxílio da Câmara Municipal contra a decisão do plano de saúde.
“Há menos de 15 dias recebemos um comunicado, alguns por telefone e a grande maioria por e-mail, informando que mais de 500 crianças seriam descredenciadas das clínicas já em tratamento. Existem várias mães aqui que também estão lutando com as crianças. Recebemos o e-mail dizendo que estariam sendo agendadas entrevistas com um psicólogo para apresentar um núcleo de terapia que eles têm na unidade e que todas as crianças, a partir de agosto, não poderiam mais ser atendidas no local onde fazem já há muito tempo o tratamento e que teriam de ir para outro núcleo. A questão é que a HapVida Intermédica não deu nenhuma condição para que nenhuma mãe pudesse recorrer. Simplesmente descredenciaram as crianças sem motivo”, disse Simone de Abreu, mãe de uma criança autista. (Fonte: https://www.jornalcruzeiro.com.br/sorocaba/noticias/2024/06/734741-responsaveis-por-criancas-com-autismo-protestam-contra-plano-de-saude.html)

Os problemas com a operadora do plano são tantos, que ela e outros responsáveis por crianças autistas já estavam com um novo protesto marcado contra o plano de saúde, para esta quinta, dia 6.
Susana Soares relata que “brigar” virou parte da rotina de quem exige atendimento adequado por parte do plano, para as crianças com autismo. “Você só consegue se brigar, gritar, correr, fazer escândalo. É preciso ir atrás da Ouvidoria, ANS (Agência Nacional de Saúde). Quem fala mais alto tem a vez, quem se conforma espera um ano – ou até mais, raramente menos”, diz a mãe. Responsáveis por crianças autistas atendidas pelo plano já fizeram outros protestos, chegaram a celebrar as conquistas, mas hoje dizem que tudo não passou de promessa.
O tempo das terapias é a principal reclamação de pais e mães. “No período de investigação, quando ainda não existe um diagnóstico, o plano dá direito a apenas 20 minutos por semana. As crianças praticamente entram na sala e saem. E não é toda semana que tem vaga. Ou seja, além do tempo ser pouco, a falta de regularidade também prejudica o desenvolvimento dos nossos filhos”, diz Susana.
A situação é acompanhada desde o começo pelo vereador de Natal, Tércio Tinoco: “Fonte: https://blog.tribunadonorte.com.br/territoriolivre/responsaveis-por-pacientes-autistas-farao-protesto-contra-plano-de-saude/)





