O avanço tecnológico nos trouxe a um cenário paradoxal. Ao mesmo tempo em que democratiza o acesso à informação, a tecnologia pulveriza a fronteira entre o real e o simulado.
Recentemente, um vídeo passou a circular com força nas redes sociais. Nele, um influenciador digital utiliza ferramentas de Inteligência Artificial para decodificar supostas mensagens em código Morse sobre aparições de OVNIs. Esse fato acende um alerta que vai muito além do entretenimento ou da ufologia.
Como especialista em Direito Digital e LGPD, vejo esse cenário com profunda preocupação. Afinal, a desinformação estruturada funciona como um vetor de instabilidade social. Por isso, o caso exige uma análise técnica, jurídica e investigativa rigorosa.
A engenharia da ilusão: O vídeo sob a ótica técnica
Para compreender o perigo, é preciso primeiro desmistificar o mecanismo. No conteúdo em questão, o produtor realiza o isolamento de áudio. Em seguida, ele submete o ruído resultante a plataformas de decodificação e modelos de linguagem generativa. Como resultado, a máquina gera a frase “há mais do que os olhos enxergam”, recebida pelo público como uma “revelação bombástica”.
Contudo, sob o olhar da ciência de dados, o que ocorre é apenas um fenômeno conhecido como alucinação direcionada. A Inteligência Artificial generativa opera por probabilidade estatística.
Portanto, quando ela é alimentada com dados corrompidos ou ruídos sem sentido prático, o algoritmo tende a moldar um resultado que satisfaça o comando do usuário. Para isso, a IA recorre a expressões altamente comuns em seu banco de dados de ficção e cultura pop. Em suma: a máquina não descobriu uma verdade oculta. Ela apenas entregou o que o criador de conteúdo queria validar.
O perigo real da desinformação e o papel do Direito Digital
A disseminação de teorias conspiratórias travestidas de “descobertas científicas” não é inofensiva. Pelo contrário, a desinformação tem o potencial latente de causar estragos reais na sociedade. Ela afeta desde a segurança pública até a confiança nas instituições e na própria ciência.
Diante disso, a postura correta e tecnicamente respaldada não deve ser de passividade ou mera curiosidade mística. É imperativo investigar o vídeo e o influenciador que o postou.
Liberdade de expressão vs. Responsabilidade civil
No ordenamento jurídico atual e no escopo do Direito Digital, a liberdade de expressão e a criação de conteúdo ficcional são garantidas. No entanto, o cenário muda quando a linha da ficção é deliberadamente borrada para induzir o coletivo ao erro.
Quando se gera pânico ou manipula a percepção pública por meio de artifícios simulados, entramos na esfera da responsabilidade civil e criminal. Desse modo, o primeiro passo para conter a viralização nociva é investigar a origem do material, o dolo (intenção) do emissor e o uso de dados no treinamento dessas ferramentas.
A LGPD e a governança de dados no olho do furacão
Sob a perspectiva da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a discussão ganha mais uma camada de complexidade. Isso ocorre porque o ecossistema que alimenta e propaga esses vídeos baseia-se na coleta massiva de dados comportamentais.
Atualmente, os algoritmos das plataformas sociais utilizam o perfil dos usuários para criar bolhas de filtro. Se um indivíduo demonstra interesse por mistérios, a IA passará a bombardeá-lo exclusivamente com esse tema para maximizar o engajamento.
Infelizmente, essa customização da realidade fragmenta o debate público. O cidadão deixa de viver no mundo real e passa a habitar uma linha do tempo desenhada sob medida para os seus próprios vieses.
Por esse motivo, a governança de dados e a transparência algorítmica são essenciais. Elas são as ferramentas que o Direito Digital moderno possui para exigir que as Big Techs prestem contas. Afinal, as plataformas não podem impulsionar narrativas distorcidas apenas para lucrar com a nossa atenção.
Conclusão: O maior perigo não vem do espaço
O maior risco que enfrentamos hoje não é uma invasão alienígena ou forças ocultas da natureza. O verdadeiro perigo reside na nossa incapacidade coletiva de filtrar o que é real do que é gerado por um prompt de comando.
A Inteligência Artificial é um espelho dos nossos desejos e medos. Se não houver uma fiscalização séria sobre os agentes que fabricam pânicos virtuais, a verdade continuará a ser distorcida ao gosto do algoritmo do dia. Por isso, aplicar o Direito Digital com rigor é fundamental para garantir a transparência na rede. Investigar não é censura; é legítima defesa da verdade factual.
Texto: Ronaldo Aleixo – Jornalista e especialista em Direito Digital e LGPD pela PUCRS
Vídeo que circula feito em IA.





