Por Ronaldo Aleixo – Jornalista Profissional, Educador, especialista em Docência do Ensino Superior, Marketing, Jornalismo Digital de Dados e Investigativo, pós-graduado (MBA) em Políticas Públicas (Uninter-PR), Direito Digital e LGPD (PUC). E mestrando em Políticas Públicas pelo IDP-SP.
No debate público e na arena eleitoral, frases ditas no calor do embate costumam revelar mais do que a simples intenção de atingir um adversário: expõem um desconhecimento conceitual grave sobre a estruturação da educação e da saúde pública. O episódio do debate da Band entre o candidato David Almeida e a professora Maria do Carmo é um retrato perfeito dessa distorção.
Ao ser questionado sobre a formação universitária de sua filha na Faculdade Metropolitana de Manaus (Fametro), David rebateu afirmando que a jovem — formada em Medicina — precisou recorrer a uma pós-graduação em São Paulo para “fazer com que os ensinamentos que teve na faculdade não fossem desperdiçados” diante de uma suposta “precariedade do ensino”.
Como especialista em educação, jornalista e mestrando em Políticas Públicas, manifesto total discórdia em relação à tese defendida por David Almeida. Trata-se de uma falácia conceitual que desvaloriza a prática médica, ignora a regulamentação do ensino e coloca sob suspeita a competência profissional.
1. O Papel da Pós-Graduação: aprofundar, não “Salvar” o passado
Do ponto de vista da Docência do Ensino Superior, a fala de David Almeida comete um erro primário de diretriz curricular:
- Graduação (Habilitação e Exercício): É na graduação em Medicina que o estudante adquire a competência técnica fundamental para diagnosticar, medicar, intervir em urgências e salvar vidas. Ao receber o diploma e o CRM, o profissional é atestado pelo Estado como plenamente apto ao exercício da profissão.
- Pós-Graduação (Especialização): A pós-graduação e a residência médica são vetores de aprofundamento e nicho (como Cardiologia, Pediatria ou Dermatologia). A especialização jamais serviu ou servirá como “curso de recuperação” para suprir lacunas do internato ou do ciclo básico.
Afirmar que uma médica precisou de pós-graduação para que a graduação “não fosse desperdiçada” é transferir para a especialização um papel que ela não possui: o de consertar uma base supostamente frágil.
2. O Risco de Taxar a própria Filha (e a Medicina) como incompetente
Sob a ótica do Direito e da Ética Médica, a fala ganha contornos ainda mais graves. Ao classificar a graduação do egresso como “precária” a ponto de demandar um “socorro” acadêmico posterior, David Almeida praticamente insinua que a filha — e todos os médicos formados na mesma instituição — concluíram o curso sem o grau de aprendizado exigido para a prática médica imediata.
A Medicina lida com a vida humana no “dia zero”. Tentar usar a trajetória acadêmica da própria filha como peça de ataque eleitoral gerou um efeito reverso: colocou em dúvida o preparo técnico do ato médico exercido por ela ao colar grau.
3. A falha na leitura de Políticas Públicas de Educação
A avaliação de instituições de ensino superior pelo Ministério da Educação (MEC) envolve métricas complexas de corpo docente, infraestrutura e projeto pedagógico. Usar o ambiente do debate público para simplificar o processo de ensino-aprendizagem e rotular o diploma universitário de milhares de estudantes como um “desperdício” reflete uma visão elitista e reducionista das políticas de ensino.
Políticas públicas de educação exigem investimento em matrizes curriculares, valorização da docência e fortalecimento das instituições locais — e não discursos que tratam a especialização acadêmica como um “remendo de luxo” para selar pendências do passado.
A pós-graduação expande horizontes, aprofunda técnicas e qualifica o especialista. Contudo, na docência e no Direito, a regra é clara: especialização não apaga histórico, não substitui matriz curricular básica e não serve de álibi para justificar lacunas de formação.
A população e a comunidade médica merecem debates pautados pelo rigor técnico, pela responsabilidade pedagógica e pelo respeito ao diploma de cada profissional formado em nosso estado.





