ÁLBUM DE FIGURINHAS – Por Lourenço Braga

Na quinta-feira última, 28 de maio de 2026, deparei-me com um depoimento feito de viva voz por um nobre e respeitável radialista de nossa Cidade, em seu Instagram, narrando o que lhe acabara de acontecer e de lhe enternecer o coração. E porque também a mim me emocionou, resolvi transpor para estas sempre pobres linhas mesmo sem autorização da fonte que haverei de terminar identificando aqui sem que lhe pretenda causar, evidentemente, qualquer desconforto.

À porta de uma loja de manutenção de aparelhos celulares, o culto jornalista foi abordado por uma criança, que lhe parecia ter idade próxima à de seu filho, uns 10, 11 anos, ao que calculou, com o seguinte pedido: “tio, me dá um álbum de figurinhas?” Intrigado com o inusitado da quase súplica daquela menina que jamais vira, fez a compra e a tanto juntou pacotes de fotos que servem para ali ser colados e guardados como lembranças do maior evento futebolístico do planeta.

Até aí, tudo normal apesar de incomum pelo objeto do pedido.

Ao sair da loja e entregar o álbum, esse amigo viveu um de seus melhores dias ao ver estampado no rostinho que se iluminou à sua frente uma alegria talvez poucas vezes experimentada, e era “como se a menina houvesse ganhado o mundo”, registrou depois emocionado. Surpresa, com o presente às mãos, a criança sorria e chorava lágrimas de alegria, sem dúvida, feliz porque fora atendida, muito mais, por certo, por haver sido reconhecida como criança, como um ser humano que havia merecido a atenção e o carinho de um semelhante seu.

Ao gravar o vídeo, em lágrimas que não conteve, Lobo destacou, com sensibilidade madura e paternal, quão grande havia sido o que lhe parecera, em princípio, pequeno por sua pouca significação material. Em sua bela e tocante manifestação, por tão legítima, havia uma explosão de felicidade pela alegria que proporcionara, de lágrimas que se misturaram no ar às da criança que talvez jamais reencontre, e de fé com que agradeceu a Deus a beleza do momento que acabara de viver.

Fred afirmou, entre soluços sufocantes: “era só uma criança querendo ser criança”.

Perdoem-me os poucos que me concedem o privilégio da leitura, além de mim, naturalmente, mas em tempo de discussões estéreis sobre revisões históricas, de imposição de comportamentos pouco ortodoxos, de acordos e propostas para suspensão de guerras e conflitos em que nem os próprios que os firmam creem, de poucas verdades e muitas mentiras repetidas em busca de voto e de abalo de prestígio de adversários, encontrar um tempo para falar da beleza de uma criança é encontrar alento para o espírito, fortalecer a crença no poder da bondade, é rejuvenescer na caminhada. A sensibilidade de Fred Lobão permitiu à menina vendedora de bombons ganhar a Copa do Mundo com o reconhecimento que lhe foi dado, e pelo menos um grito de gol há de ter ecoado no palco da vida.

Sei bem avaliar o sentimento que dominou o nobre radialista ao gravar o vídeo olhando o semblante feliz da nova proprietária de um álbum de figurinhas da Copa. Já aqui falei de episódio semelhante, de emoção igual, quando um homem que não conheço e que nem mais vi pediu-me uma ajuda e parecia ter ganho na loteria quando encontrou em suas mãos pouco limpas porque em contato com o chão onde se encontrava sentado, uma cédula (ainda se usa isso?) de vinte reais. Seus olhos ganharam brilho novo, seu sorriso era símbolo de incredulidade e parecia agradecer haver sido reconhecido como um ser da mesma espécie humana que nós outros.

Vinte reais? perguntarão por certo alguns que não falam do que aqui estou a tratar, que afinal é verdadeiramente muito pouco, mas naquele dia alguém lhe havia proporcionado o direito primário ao alimento do corpo. Também trocamos lágrimas ao nos olharmos fixamente e como Fred experimentei a convicção de que vale a pena ser, ver e reconhecer, justo porque ganha-se mais ao doar que ao receber.

 

Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas lourencodossantosspereirabraga@hotmail.com

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