O Brasil voltou à condição de devedor internacional durante o mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, encerrando um ciclo de 19 anos consecutivos em que o país figurava como credor externo.
Dados oficiais do Banco Central (BC) revelam que a dívida externa brasileira atingiu US$ 407,1 bilhões, ultrapassando o volume das reservas internacionais (acrescido dos créditos no exterior), que soma atualmente US$ 402 bilhões.
O montante marca o maior nível de endividamento externo registrado nas últimas quatro décadas de estatísticas do BC.
A virada na balança ocorreu em junho, quando a dívida externa líquida ficou positiva em US$ 5,1 bilhões, sinalizando a mudança de patamar do país.
O avanço da dívida em números
Crescimento da dívida externa: +27,4% durante a gestão Lula III.
Crescimento das reservas: +15,8% no mesmo período (limitado por intervenções cambiais do BC e pela oscilação das moedas).
Déficit em transações correntes: Em 2025, o país registrou uma saída líquida de US$ 67,4 bilhões via transações correntes (comércio de bens, serviços e remessas ao exterior) — mais que o dobro do déficit registrado em 2023 (US$ 27 bilhões).
Entre os fatores que aceleraram a remessa de dólares para o exterior estão o aumento nos gastos com serviços importados, investimentos em criptoativos e pagamentos de juros e amortizações a credores internacionais.
Avaliação de risco e impacto na economia
Apesar da virada no indicador, economistas e agências de classificação de risco avaliam que o cenário não representa uma ameaça iminente de crise nas contas externas.
O que atenua o risco:
Proporção baixa: A dívida externa líquida atual representa menos de 0,3% do PIB.
Setor privado: Cerca de 73% da dívida externa total pertencem a empresas e bancos privados, que possuem receita própria em moeda estrangeira ou mecanismos de proteção cambial (hedge).
Liquidez: As reservas cobrem mais de três vezes as dívidas com vencimento de curto prazo.
Por outro lado, analistas alertam que o principal gargalo continua no campo fiscal doméstico.
O desequilíbrio das contas públicas do governo federal pressiona a inflação, eleva os juros e encarece o custo do endividamento interno.
Posição do governo e planejamento do Tesouro
Em nota e manifestações técnicas, o Tesouro Nacional informou que considera confortável a cobertura da dívida externa. A estratégia do órgão é continuar emitindo títulos no exterior para diversificar as fontes de financiamento:
Meta de longo prazo: Elevar para 7% a participação da dívida em moeda estrangeira no estoque da Dívida Pública Federal (hoje abaixo de 4%).
Novas frentes: Além de títulos em dólar, o governo estuda novas emissões em euros no mercado europeu e a primeira operação da história em yuan (moeda chinesa), já autorizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
O movimento brasileiro ocorre em meio a um cenário global desafiador, marcado por altas nas taxas dos títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries) e concorrência acirrada por capital estrangeiro impulsionada por investimentos globais em inteligência artificial.





