OPINIÃO: O “Canto da Sereia” da BR-319 — Por que o asfalto eleitoral de Eduardo Braga pode não chegar ao destino

A história se repete. Com a proximidade das eleições de 2026, a BR-319 ressurge nos discursos políticos como a “tábua de salvação” do Amazonas. Desta vez, o senador Eduardo Braga (MDB) encabeça a narrativa, utilizando a publicação dos recentes editais do DNIT como troféu de uma batalha que, na realidade, está longe de um armistício. Como especialista em Políticas Públicas, sinto-me no dever de separar o fato administrativo da fantasia eleitoral.

O Cheiro de Mentira Eleitoral
A promessa de que “agora vai” esbarra em uma matemática simples e implacável: os editais publicados em 13 de abril de 2026 preveem 36 meses (3 anos) para a pavimentação de 339 km do Trecho do Meio. Ou seja, mesmo no cenário mais otimista — sem chuvas atípicas e com máquinas roncando amanhã —, a obra só terminaria em 2029.

Vender isso como uma realização de 2026 é subestimar a inteligência do eleitor amazonense. É o uso de uma necessidade vital do nosso estado como “moeda de troca” para as urnas, ignorando que o cronograma técnico atropela o calendário político.

O “Nó” da Judicialização: O que o Senador não diz
No campo do Direito e da transparência pública, o que vemos é um castelo de cartas. Os editais atuais foram lançados sob uma base jurídica frágil, utilizando dispositivos de flexibilização ambiental que já estão na mira do Ministério Público Federal (MPF) e de organizações como o Observatório do Clima.

Vulnerabilidade Jurídica: No último dia 16, entidades já anunciaram novas ações na Justiça Federal para suspender esses editais. A alegação é grave: o governo estaria usando trechos da “Lei da Devastação” para ignorar estudos de impacto ambiental profundos.

Risco de Paralisia: Se as obras começarem sob o efeito de liminares frágeis, o risco de termos, novamente, canteiros abandonados e milhões de reais desperdiçados em 2027 é altíssimo.

Insegurança Digital e Transparência: No Direito Digital, defendemos a governança de dados e a clareza nos processos públicos. O que falta aqui é uma “Digital Road Map” real, que mostre os entraves de licenciamento em tempo real para a população, em vez de anúncios de impacto no Instagram.

O Abismo de 2027
Há ainda o fator “dia seguinte”. Em 2027, o Brasil terá um novo cenário político. Se o atual governo não se sustentar, todos esses contratos de 3 anos passarão por auditorias e possíveis revisões orçamentárias. O senador Eduardo Braga não pode garantir a continuidade de um projeto que nasce sob o signo da contestação judicial e do oportunismo de calendário.

A BR-319 não precisa de “bandeiras de campanha”, precisa de segurança jurídica. Enquanto o discurso focar em inaugurar placa de obra que só termina em outro mandato, continuaremos atolados na lama da desinformação. O asfalto que o senador promete hoje tem cheiro de tinta fresca de santinho eleitoral, mas a durabilidade pode não passar do domingo de votação.

 

Para assegurar o equilíbrio editorial e o cumprimento dos preceitos éticos do jornalismo profissional, o Portal Chumbo Grosso reafirma seu compromisso com o contraditório e a pluralidade de vozes. Em respeito à legislação vigente e ao princípio da ampla defesa, este espaço permanece aberto ao senador Eduardo Braga e à sua assessoria jurídica ou de comunicação para que apresentem seus esclarecimentos, notas técnicas ou contraponham os pontos aqui analisados. Acreditamos que o debate transparente sobre os prazos e a segurança jurídica da BR-319 é o único caminho para que o cidadão amazonense receba, de fato, a informação completa e isenta que merece.

 

Por Ronaldo Aleixo – Jornalista (DRT 96423/SP), Especialista em Políticas Públicas e Direito Digital (UNINTER-PR/PUC-RS).

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